MST - 5
Dans sa dernière livraison, Miguel Sousa Tavares revient sur le cas de Ricardo Quaresma, un joueur qui depuis le début de saison semble voué à un rôle de remplaçant... C'est pourtant un joueur qui l'an passé a sauvé son club en lui offrant diverses fois les 3 points grâce à des actions de jeu comme lui seul en a le secret. Seulement voilà, Co Adriaanse n'aime pas trop les joueurs dont les pieds sont trop collés au ballon, les joueurs qui tentent de dribler toute l'équipe adverse avant de tenter un tir... Seulement voilà, samedi dernier c'est un joueur possédant ces caractéristiques qui lui a offert les 3 points. Quaresma est l'archétipe même des joueurs qui savent faire la différence dans un match. C'est aussi des joueurs comme ça qui nous poussent à payer notre billet pour aller voir les matchs. Enfin, c'est pour voir des buts comme celui que nous a offert Quaresma que nous allons au stade (et que nous sommes prêts à endurer la pluie, le froid...).
Autre aspect abordé par cette "Nortada", la question McCarthy. En effet, le joueur a été expulsé du stage de l'équipe après avoir été surpris dans l'hôtel en train de se faire coiffer la veille du match, une entrave au règlement intérieur de l'équipe imposé par l'hollandais Adriaanse à son arrivée dans le club. Seulement voilà, dans la conjoncture actuelle, mettre Benny McCarthy de côté peut porter préjudice à l'équipe. Porto a besoin d'un attaquant comme McCarthy et cela c'est vu samedi dernier contre Rio Ave et mardi soir contre le Celtic Glasgow...
Pour terminer, Miguel Sousa Tavares évoque la concurrence, plus particulièrement Benfica en insistant sur les lacunes que possède l'équipe de Koeman... Il faut dire que durant les 3 premiers matchs du championnat, le Benfica champion s'est montré d'une faiblesse déconcertante (1 nul et 2 défaites...).
P.P.
"NORTADA" de Miguel Sousa Tavares
in A Bola, 13/09/2005.
1 - Depois de assistir àquele fabuloso golo com que Ricardo Quaresma salvou o FC Porto de perder dois pontos em casa contra o Rio Ave, o comentador da TVI saiu-se com a extraordinária sentença de que Quaresma ainda não tinha qualidade para ser titular de início, mas que era bom para jogar os últimos dez ou quinze minutos de cada jogo. E não sei que mais me espantou: se aquela obra de arte arrancada pelo moço cigano, se o comentador que acha que o perfume de um génio não se pode prolongar durante mais do que um quarto de hora num jogo de futebol, devendo, no resto do tempo, ceder o lugar a alguém que dê menos nas vistas, para o bem e para o mal. É, infelizmente para o espectáculo, uma maneira de pensar muito enraizada em certos espíritos, particularmente o dos treinadores: perdoa-se muito menos coisas a quem é capaz de um golpe de génio do que a quem apenas é capaz de passar pelo jogo esforçadamente. Para muitos parece que o génio é inimigo da eficácia.
Porém, desmentindo essas teorias e jogando não mais do que os dez minutos finais de cada um dos jogos, Ricardo Quaresma, com dois rasgos só ao alcance dos bem-aventurados, ofereceu quatro pontos em bandeja de prata ao seu treinador, tão relutante em render-se à eficácia do seu génio. Na Figueira da Foz, com um toque de calcanhar, acompanhado de uma fabulosa rotação de corpo, isolou-se sobre a esquerda e daí arrancou um centro mortífero que terminaria no golo decisivo da vitória do FC Porto; contra o Rio Ave e um aparentemente inultrapassável guarda-redes, entrou na área pela direita e, com um defesa pela frente, aplicou o seu célebre remate em arco, de "trivela", que deixou o defesa e o guarda-redes pregados ao chão que pisavam e, com isso, abriu o caminho de outra vitória, mesmo ao cair do pano.
Quem me segue, sabe que aqui defendi, por duas vezes, em semanas recentes e, antes disso, na época passada, a tese de que deixar de fora jogadores como o Ricardo Quaresma não é apenas empobrecer o espectáculo, mas também diminuir as hipóteses de vitória. Mas, aí está: se o Quaresma está em dia não, se os números de prestidigitação não lhe saem como ele queria, cai-lhe tudo em cima, porque parece que se a normalidade tem sempre desculpa e nunca choca, já o génio é exigível todos os dias. Pois eu tenho a tese contrária: há grandes jogadores que valem pela sua regularidade e há grandes jogadores, que vivem da inspiração repentina e que, necessariamente, são irregulares. Quem quer que viva da inspiração sabe que esta é um dom com regras próprias e alturas imprevisíveis. Agora, o que de todo me parece insustentável é que se exija de um génio que faça em dez minutos o que dos outros não se espera nem se exige em noventa.
Foi exactamente por perceber isso e teimar em manter Liedson na equipe, apesar da sua aparente "ausência" dos jogos, que José Peseiro colheu os frutos de duas vitórias decisivas, contra Marítimo e Benfica, ambas pela fórmula "Liedson resolve".
Porque só um predestinado para o golo, como aquele franzino brasileiro, poderia ter ganho nas alturas a Luisão, adivinhando o ponto exacto onde a bola iria cair, saltando nas costas do gigante, rodando a cabeça para atacar a bola de testa num golpe perfeito, e enfiá-la, sem defesa, no canto superior direito de Moreira. E é por isso que há jogadores como Liedson e Quaresma, ou o saudoso Jardel, que marcam golos e resolvem jogos, e outros, como Nuno Gomes, Hélder Postiga ou Sokota, que é só estilo e promessas por cumprir. Eu prefiro os que marcam e resolvem jogos, mas há quem tenha opinião contrária...
2 - Benni McCarthy é também um dos que fazem a diferença. É verdade que, como diz Co Adriaanse e reza a estatística, o FC Porto ganhou os três primeiros jogos do campeonato e marcou seis golos sem o McCarthy. só que três dos seis golos foram marcados por defesas e os restantes por suplentes. Adriaanse pode continuar a tentar marcar golos com postiga e Sokota (e preterir estranhamente Hugo Almeida): não o conseguirá.
Não discuto o código de disciplina interna do treinador portista, nem a necessidade, que era palpável, de introduzir disciplina naquele grupo profissional (é fantástica a transformação que ele conseguiu em campo: a equipe praticamente não comete faltas não discute com o árbitro não vê cartões). Mas sempre achei que castigar os jogadores faltosos ou indisciplinados retirando-os da equipe é um castigo maior para a equipe do que para o jogador. No sábado passado, contra o Rio Ave a falta que McCarthy fez à equipe foi sentida até ao minuto 87 e so não foi irremediável, porque o também subaproveitado Quaresma fez questão de lembrar a Adriaanse que os grandes jogadores são normalmente decisivos. E hoje à noite, em Glasgow, vai ser necessário que outros tenham a inspiração suficiente para disfarçar a falta que um verdadeiro "matador" faz no centro do ataque portista.
3 - Ronald Koeman já está a ferver em lume brando: se quarta-feira, começar mal a caminhada na Champions, contra o Lille, os lenços brancos e os "papagaios a voar" desabarão fatalmente sobre a sua cabeça.
Todavia, aquilo que lhe criticam não faz grande sentido. Dizem que tem a mesma ou melhor equipe que no ano passado e os resultados são piores. Mas, não só ainda a procissão vai no adro, como também a equipe recebida de Trapattoni nunca, ao que conste, passou por boa, e só a sorte, o haraquiri dos adversários e a associação com Valentim Loureiro na Liga permitiram arrastar - é o termo - até ao sofrido título de campeão. A equipa é, de facto, tão fraca, que, apesar de ter recebido os tão anunciados reforços na véspera do derby com o Sporting, Koeman nem hesitou em lançá-los na batalha: e, se o não tivesse feito, teria sido crucificado - em especial por uma imprensa que relata os treinos do Benfica como se fossem jogos da Champions e desde logo apresentou Micolli como um avança-do-maravilha que iria pôr Alvalade a tremer de medo.
Também criticam a Koeman ter mudado o esquema com que Camacho e Trapattoni enfrentaram a triste realidade que tinham disponível por um mais ousado e ofensivo 3x4x3. Mas esquecem-se que o sistema de jogo anterior não produziu mais do que duas ou três exibições em cheio em duas épocas e gerou inúmeras sessões de lenços brancos e espectáculos para bancadas semi-vazias, ao contrário do que anunciava a publicidade benfiquista. É verdade que Koeman também cometeu o erro de ter apostado para Alvalade no mais que sabidamente ineficaz Carlitos, mas não é ele o culpado de ter apostado na contratação de Carlitos como jogador-sensação. O que falta ao Benfica, gritantemente, é aquilo que abunda no Sporting e no FC Porto: bons jogadores. Extraordinário não é que o Benfica tenha perdido em Alvalade: extraordinário é que não tivesse perdido. Mas dêem a Koeman um João Moutinho, um Liedson, um Douala, ou um Quaresma um Jorginho ou um McCarthy, e, então sim, exigam-lhe resultados e espectáculo."
Source: http://www.abola.pt/colunistas/index.asp?op=ver&texto=1601.