MST - 22

Publié le par P.P.

Dans cette nouvelle chronique, Sousa Tavares aborde l'épisode de l'arrivée tumultueuse du président du SLB à Lisbonne suite à une soit disante agression de la part d'un élément lié au FC Porto... Encore une triste scène "cinématographique" qui ne joue pas en faveur de la crédibilité des dirigeants lisboètes (des accusations qui restent sans preuves)... Il aborde également la question de la réforme des compétitions professionnelles de football.

Bonne lecture !

P.P.

"Ilusões, aparências e farsas"

1. Tenho de voltar a este assunto sórdido. Doía-me a alma se o não fizesse. Seis profissionais de uma actividade a que chamam segurança, fardados como tal e presumivelmente a mando do Sr. José Veiga, director do futebol do SL Benfica, fizeram uma espera no aeroporto da Portela a um passageiro, acusado de ter incomodado («empurrado») o presidente do Benfica no aeroporto de S. Paulo e, perante os jornalistas, televisões e agentes da PSP, provocaram-no e enfiaram-lhe uma estalada como aviso. Ele encaixou a estalada e, por isso, a coisa ficou por aí. Foi um episódio verdadeiramente siciliano, revelador de várias coisas incontornáveis, tais como uma atitude de impunidade, de sobranceria, de quero, posso e mando que, por si só chegou e bastou para revelar a uma outra luz a face de alguns cavalheiros regeneradores da selva do futebol português. Com honrosas excepções, seguiu-se, na nossa imprensa desportiva, a tentativa de branqueamento do episódio. E nada melhor para tal do que a batota de meter no mesmo saco um facto e um não facto. O facto era a agressão encomendada por alguém que manda no Benfica; o não facto, a imaginativa encenação de atribuir o suposto empurrão ao presidente do Benfica no aeroporto de S. Paulo a um emissário do FC Porto. Mas se o primeiro episódio foi visto, fotografado e filmado por todos, se os seguranças contratados acompanhavam um director do Benfica, já o segundo episódio tem como testemunha, intérprete e acusador apenas e só o próprio presidente do Benfica. Quando eu estudei jornalismo, aprendi que tal era manifestamente insuficiente para se transformar em facto. Mas, à conta desta mais do que forçada semelhança de factos, atitudes e responsabilidades, escreveram-se pungentes textos moralistas, em que o visto e o não visto, o real e o imaginário, se equivaliam até ao desejado ponto de poder legitimar os acontecimentos do aeroporto de Lisboa com os supostos acontecimentos do aeroporto de S. Paulo, fácil e expeditamente atribuídos à terrível gente do FC Porto. E assim, não se dispensando de extrair uma condenação de princípio sobre o assunto, preservou-se cuidadosamente a figura de intocável do presidente do Benfica e do seu Richelieu de serviço. Quando Luís Filipe Vieira surgiu à frente dos destinos do maior clube português, não fiz cerimónia em elogiar aqui, e mais do que uma vez, o que me parecia ser uma postura de humildade, trabalho e empenho em defesa dos interesses do seu clube e até do futebol, em geral. Mas, com o correr do tempo, e em especial desde que se associou intimamente a José Veiga, venho notando que, se o trabalho e esforço pelo Benfica se mantêm e só lhe ficam bem, já a sua contribuição para a melhoria do futebol português cedeu lugar a uma atitude de hegemonia extradesportiva e prepotência entre pares, que sepultou de vez a elogiada humildade. Embriagado por uma imprensa que lhe dedica um verdadeiro e ridículo culto de personalidade, Luís Filipe Vieira parece-me estar a resvalar para próximo da fronteira onde acabará por achar que tudo lhe é lícito, impune e elogiado, apenas porque é presidente do maior clube português. Oxalá, digo-o sinceramente, seja só uma impressão minha.

2. Realmente, e para terminar o rescaldo do palpitante episódio Moretto, Pinto da Costa tem razão na pergunta que fez e que permanece sem resposta: se o Moretto só queria ir para o Benfica, se Chumbita Nunes só queria que ele fosse para o Benfica e se mantinha contrato válido com o Setúbal, que necessidade havia de ir ao Brasil raptá-lo das garras do FC Porto? Porque não esperar tranquilamente que ele regressasse a Setúbal e assinar então contrato com ele? É verdade que não produzia o mesmo efeito espectacular para enganar parolos, mas era mais simples, mais lógico e, sobretudo, mais revelador das verdadeiras intenções negociais de Moretto - (hoje, tal como Marco Ferreira, benfiquista desde pequenino).

3. Abandonados à sua sorte, os futebolistas profissionais do Estoril-Praia lamentaram que o «accionista principal» (com 60% das acções) não tenha aparecido na hora da verdade, a dar a cara e a responsabilizar-se pelos vários meses de salários em atraso. E porque não apareceu o accionista principal? Porque ele supostamente não o é nem pode sê-lo. Trata-se do Sr. José Veiga, dirigente do Benfica e que, pelos estatutos da Liga, não pode acumular as duas funções e, por isso mesmo, foi dito e anunciado, há mais de um ano, que tinha deixado de as acumular. Afinal, parece que não. Mas, entretanto, já lá vai o célebre jogo deslocado da Amoreira para o Estádio do Algarve e que tanto jeito deu para o título do ano passado. O tal jogo que, a troco da batota desportiva, iria servir justamente para pagar os ordenados aos jogadores do Estoril. Francamente, também, já começam a ser coincidências a mais: onde há ordenados em atraso, aparece sempre o Benfica a tirar partido da situação.

4. 53.000 espectadores na Luz, 42.000 no Dragão, é notável — em contraste com os 14.000 de Braga (a ganância dos bilhetes a 50 euros paga-se e é bem feito). Mesmo assim, juntando estes três números aos resíduos das restantes assistências da 17.ª jornada da Superliga, pode-se dizer que a média andou pelos 15.000 por jogo. Seria reconfortante se a estatística não fosse uma ciência morta. Neste caso, o que a estatística não explica mas confirma é que só temos três ou quatro clubes com sustentação popular para disputar uma primeira divisão. É triste, mas é um facto, que deveria servir de ponto de partida a qualquer reflexão séria sobre a inadiável reforma dos quadros competitivos do futebol profissional.

5. Notável também que, em todos os jogos envolvendo os primeiros da classificação, não tenha havido um só caso de arbitragem. É verdade que Carlos Brito, lá de baixo do banco, viu um penalty que, posso-lhe garantir que, lá de cima da bancada ninguém viu — pelo menos na área do FC Porto. E a dualidade de critério disciplinar de que ele fala, existiu sim, mas a favor do Boavista e, particularmente de Tiago, um jogador que parece ter como principal prazer no futebol distribuir cacetada pelos adversários.»

Miguel Sousa Tavares, in A Bola (10/01/2006)
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